Carlo Ginzburg faz uma leitura histórica consistente sobre o tempo presente.
http://www.youtube.com/watch?v=xr0xOQ48Wzs
Quem sou eu
- Josimar
- Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
- Especialista em Docência do Ensino Superior pela Fibh e graduado em História pelo Centro Universitário de Belo Horizonte. Atualmente é professor do ensino médio. Tem experiência na área de História, com ênfase em História da tecnologia na educação.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
sábado, 16 de março de 2013
Johann Martin Chladenius
Hoje descobri que Johann Martin Chladenius, foi muito importante para o desenvolvimento do pensamento histórico. Entretanto, a pergunta que não quer calar é por que nenhum professor da faculdade falou sobre ele durante o curso de história? Fala-se tanto em Escola dos Annales e as mudanças que promoveram na forma de se pensar a história, no entanto esquecem das mudanças promovidas por Chladenius no século XVIII. Mudança essas que influenciam ainda hoje, melhor dizendo, hoje mais do que nunca, o pensamento histórico acadêmico cientifico. Precisamos resgatar o historicismo alemão do ostracismo que lhe foi impostado e contrapor seus ensinamento com os ensinamentos da escola francesa.
"Ha uma razão pela qual conhecemos algo dessa maneira e não de outra. Trata-se do ponto de vista a partir do qual se contempla a mesma coisa. (...) Desse conceito decorre que aqueles que contemplam algo a partir de diferentes pontos de vista devam necessariamente construir representações diferentes desse objeto." (Johann Martin Chladenius. In. Koselleck)
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
ENSINO: ALGO PARA SE PENSAR
Nos dias atuais a definição de sociedade se tornou
escapadiço. Uma vez que a humanidade se encontra permeada por sociedades
liquidas onde as identidades são fluidas e nas quais as “verdades” são
passageiras e, “para sempre”, ao contrario do cita Bauman[1],
não dura nem vinte anos. Talvez sendo mais correto afirmar que se encontra bem
próximo do que disse Vinicius de Moraes: “Que seja eterno enquanto dure”.
A humanidade nos últimos trinta anos sofreu mudanças até
então inimagináveis. Certezas cederam lugar há incertezas, o impossível
tornou-se possível, a ficção saiu do imaginário das pessoas visionárias
tornando-se realidade no mundo factual. A informática ocupou espaços importantes
no dia-a-dia das pessoas e, ao longo de sua curta trajetória, foi se
miniaturizando tornando-se cada dia mais portátil e fácil de carregar.
Celulares, tabletes, ifones, netbooks viabilizaram o acesso a internet móvel
eliminando os fios e ampliando as formas de conexão a Rede Mundial de
Computadores. O que possibilitou às pessoas obter informações sobre os mais
variados assuntos onde quer que ela se encontre.
Assim essas mudanças proporcionadas pelas tecnologias
digitais se constituíram a base do mundo pós-moderno em que vivemos, ou como
diria Bauman[2], dessa ”sociedade líquida”,
onde as identidades se tornaram fluidas e movediças. O que Possibilita que as
pessoas tornem-se o que quiserem, ainda que de formar ficcional. Ou como afirma
Bauman (2005),
a “identidade” só nós é revelada como algo a ser
inventado, e não descoberto; como alvo de um esforço, “um objetivo”; como uma
coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre
alternativas e então lutar por protegê-la lutando ainda mais – mesmo que, para
que essa luta seja vitoriosa, a verdade sobre a condição precária e eternamente
inconclusa da identidade deva ser, e tenda a ser, suprimida e laboriosamente
oculta.
Motivo pelo qual encontramos pensadores que na busca por
alternativas para salva a educação brasileira, apresentam soluções no mínimo
milagrosas, como a “Carta de Transdiciplinsridade” [3].
Em um mundo no qual, como diria Marx, “tudo que é solido se desmancha no ar”,
devido à velocidade das transformações provocadas pela parceria ciência e
tecnologia. Como esperar que diretrizes traçadas sob a égide de uma pseudo
Transdisciplinaridade seja a solução de todos os problemas enfrentados na
educação? E o que é pior, como se apoiar
sobre diretrizes traçadas por homens que se sentem acuados pela velocidade que
as tecnologias apreendem nas mudanças dos “fatos”? Situação que se encontra estampada de forma clara no preâmbulo da mesma
em frases como, “Considerando que a vida está fortemente ameaçada por
uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia
pela eficácia.[4]” Ainda que estes homens
sejam Doutores renomados em seus segmentos, não podemos deixar de perceber em
seus escritos o receio do desconhecido. Além do mais, Segundo Roger Chartier[5] “Aquilo
que é radicalmente novo, com a revolução eletrônica atual, é que não há
processo de aprendizagem transmissível de nossa geração à geração dos novos
leitores.”
Desta forma, talvez a grande pergunta a se fazer sobre a
utilização dos princípios impressos nesta Carta de Transdisciplinaridade é se
estes estudiosos já conseguiam antever os rumos que a sociedade tomaria
transformando-se nesta sociedade liquida, multifacetada e globalizada presente na
atualidade. Ou será que eles estavam tentando se proteger de um futuro incerto?
Como deixam transparecer no trecho escrito desta forma, “Considerando que a
ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior
cada vez mais empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências
sobre o plano individual e social são incalculáveis.[6]” Um
novo obscurantismo? E ai a pergunta que não quer calar é, será que o fato que
se apresenta para eles de forma obscura também o é para as gerações dos “novos
leitores” que os sucederam e principalmente para os leitores das gerações
vindouras? Nicolau Sevcenko[7] traz
uma analogia sobre Albert Einstein que é interessante para se pensar sobre esta
situação. Quando criança Einstein
passeava de trem e se maravilhava com os faróis das maquinas ao se cruzarem em
um túnel , e, se perguntava o que veria se estivesse em um daqueles fachos de
luz. Ao tentar compartilhar esta ideia com seu pai e seu tio não foi compreendido
por eles que viam apenas dois faróis que tinham a função determinada, porem o
jovem Einstein via ali um manancial de possibilidades ilimitadas. A diferença
entre Einstein e seus parentes é a perspectiva da dimensão do olhar. Se para o
pai e o tio de Einstein todo o contexto da eletricidade era uma inovação, para
ele ,que nascerá em um mundo no qual o seu uso já era um fato, a eletricidade
já não era novidade, mas sim suas possíveis potencialidades. Portanto, o que
para os idealizadores da Carta da Transdisciplinaridade parece obscuro para
outros que tenham uma perspectiva de olhar diferente pode ser uma gama de
possibilidades a ser explorada.
Não obstante, de alguns de seus artigos é possível retirar,
com moderação e consciência do contexto na qual ela foi elaborada, conceitos e
diretrizes que podem ser empregados no ensino formal brasileiro. Uma vez que
muito se fala sobre a utilização de métodos interdisciplinares e transversais
na pratica docente.
O fato é que a aplicação de métodos interdisciplinares e
transversais no ensino de história é quase uma unanimidade entre os docentes.
Porém, o seu uso deve ser feito de forma condizente com o momento de
globalização que se faz presente no mundo hoje.
No que se refere ao ensino de história, o uso da
interdisciplinaridade é uma constante, uma vez que o docente que atua nesta
área acaba, querendo ou não, tendo que lançar mão de conceitos e métodos
pertencentes as mais diversas áreas de atuação da ciência em prol de alcançar a
compreensão histórica.
Contudo, deve-se ter o cuidado de buscar sempre novas formas
de ver o mesmo objeto de estudo com o passar do tempo. Sempre se preocupando em
perceber a visão e os anseios dos estudantes que participarão do processo de
ensino aprendizagem. Pois só através da leitura do momento em curso, das
expectativas dos estudantes, do seus conhecimentos prévios e da influência
destes fatores no cotidiano dos alunos é que será possível agir como
facilitador do conhecimento. Sempre tomando o devido cuidado para não incidir
no “erro”, do passado, de engessar os alunos a partir de conceitos
pré-determinados. Destarte, a interdisciplinaridade e a transversalidade é um
caminho, mas não a solução de todos os problemas da educação.
Considerações Finais
È triste constatar que uma
reportagem publicada na revista Nova Escola[8],
dizendo que os cursos de licenciaturas não preparam seus alunos para a
realidade do ensino no Brasil, é verdade. Claro que as instituições através de
seus professores ministram vários conteúdos pertinentes ao curso que se dispõe
a proporcionar. Mas isso é muito pouco para se formar um professor no Brasil
atualmente. O mundo mudou, as pessoas mudaram, as crianças não são mais as
mesmas e as escolas pelo que podemos perceber, continuam as mesmas de cinqüenta
anos atrás, ainda que algumas se vistam com uma roupagem moderna. E o que é
pior, os graduandos dos cursos de licenciaturas saem dispostos a mudar os rumos
da educação do país, mas sem nem se quer conhecer o tamanho do dragão que os
espera fora dos muros da instituições de nível superior.
Bauman, Zigmunt. A
Sociedade Liquida. Jornal Folha de São Paulo de 22 de maio de 2003.
BAUMAN, Zygmunt. Identidades: Entrevista a Bendetto
Vecchi. Rio de Janeiro, 2005, Ed: Jorge Zahar.
Carta de
Transdisciplinaridade. Disponível em: www.ufrrj.br/.../Arquivo_14_Carta_Transdisciplinaridade_.
Acesso em: 25/02/2012.
CHARTIER, Roger. A Aventura do Livro: do leitor ao
navegador. Tradução: Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. 2ª Ed. Ed: Unesp –
São Paulo – SP 1998.
SEVCENKO, Nicolau. A Corrida Para o Século XXI: No
Loop da Motanha-russa. Ed: Companhia das Letras. São Paulo, 2001.
[1]
BAUMAN, Zygmunt. A Sociedade Liquida.
Jornal Folha de São Paulo de 22 de maio de 2003
[2]
BAUMAN, Zygmunt. Identidades: Entrevista
a Bendetto Vecchi. Rio de Janeiro, 2005, Ed: Jorge Zahar.
[3]
Redigida em Portugal no ano de 1994 no convento de Arrábida por um grupo de
estudiosos.
[4]
Carta de Transdisciplinaridade
[5]
CHARTIER, Roger. A Aventura do Livro: do leitor ao navegador. Tradução:
Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. 2ª Ed. Ed: Unesp – São Paulo – SP 1998.
[6]
Carta de Transdisciplinaridade
[7]
SEVCENKO, Nicolau. A Corrida Para o Século XXI: No Loop da Motanha-russa. São
Paulo, 2001.
sábado, 12 de maio de 2012
Mitos da escravidão em Minas são derrubados por pesquisador
Reportagem de Gustavo Werneck -
Publicação: 12/05/2012 06:00Atualização:
12/05/2012 07:59 - Jornal Estado de Minas
Nas
novelas de tv, ambientadas nos tempos da escravidão, os negros têm destino
certo: quando não ficam amarrados no tronco apanhando feito cachorro, estão
presos aos grilhões nas senzalas ou preparando quitutes na cozinha da fazenda.
Já na literatura do século 19, comem o pão que o diabo amassou – se é que havia
pão! – no porão das embarcações, encarando “tanto horror perante os céus” –
como escreveu o baiano Castro Alves (1847-1871) no poema Navio Negreiro. Ganhou
força, então, no imaginário popular, a imagem de homens e mulheres humilhados,
vítimas de olhos baixos e impotentes para levantar a voz contra o seu senhor.
Mas novos estudos mostram que a trajetória dos escravos africanos no Brasil tem
muitos mitos e que eles foram, sim, agentes da história e nem sempre submissos.
Estudioso de tema tão polêmico há mais de 20 anos e autor de vários livros, o professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Eduardo França Paiva conta que os escravos desenvolveram autonomia e até ajuizaram ações contra os seus proprietários, quando se sentiam lesados. Muitas vezes levaram a melhor no tribunal, ao defender, por exemplo, que já haviam pago todas as parcelas de compra de sua liberdade, algo que o senhor contestava. “O equívoco maior é pensar que os cativos foram vítimas o tempo todo. O 13 de maio de 1888, lembrado amanhã, data em que a Princesa Isabel (1847-1871) assinou a Lei Áurea e extinguiu a escravidão no Brasil, serve para discutir o assunto e corrigir uma série de distorções, muitas delas construídas pelos abolicionistas”, diz o professor, que segue na próxima semana para Sevilha, Espanha, onde fará o segundo pós-doutorado, desta vez sobre as Américas portuguesa e espanhola.
Nas suas pesquisas, o professor Eduardo, que atua nas áreas da história da escravidão e das mestiçagens, vem fazendo descobertas surpreendentes. Uma das mais importantes se refere aos senhores de escravos que, ao contrário do que se aprende na escola e nos livros didáticos, nem sempre eram brancos. Em Minas, do início do século 18 a meados do 19, mais de 30% desses proprietários eram ex-escravos ou descendentes de escravos. Em 1776, conforme as estimativas, havia na capitania de Minas, então a mais rica e populosa da colônia, com um comércio conectado com o mundo e efervescência social e cultural, cerca de 300 mil habitantes, sendo 130 mil forros (ex-escravos), 110 mil escravos e 60 mil brancos.
“Havia em Minas mais ex-escravos do que escravos, a maior parte mulheres”, afirma o professor, explicando que somente a partir da segunda metade do século 19, a escravidão passou a ser condenada. “Até então, era legal e legítima, e os cativos prezavam dois valores fundamentais: queriam ser livres e proprietários de escravos. Os castigos físicos eram comuns nesses tempos de patriarcado, em que os pais batiam muito nos filhos”, diz o autor de vários livros, entre eles Escravidão e universo cultural na colônia, editado pela UFMG, e Escravos e libertos nas Minas Gerais do século 18, da coleção Olhares/UFMG/Annablume.
Fortuna
Entre as personagens mais importantes encontradas nas pesquisas está Bárbara Aleluia –negra filha de africanos, nascida no Brasil –, uma pernambucana que viveu em Sabará. “Ela foi uma das mulheres mais ricas da época, acumulou fortuna com o comércio e outras atividades”, revela. Pinturas ainda desconhecidas da maioria dos brasileiros mostram negras cobertas de joias e usando trajes típicos, a exemplo das mulheres africanas, ou andando pelas ruas com seu séquito. Num livro, Eduardo mostra o retrato de uma baiana, uma negra enriquecida, que posa em estúdio com seus colares de ouro.
Em Minas, com uma sociedade mais urbana, a situação era bem diferente da encontrada ao Norte da América Portuguesa. “Aqui havia muitos senhores de poucos escravos, em média cinco para cada um, bem diferente de Pernambuco e Bahia, com 30 por um. Outro diferencial mineiro é que nem todos os proprietários eram ricos”, diz o professor, explicando que, por volta de 1730, a mineração de ouro já estava em decadência, embora a economia se mantivesse forte e dinâmica, com um comércio influente e produção agrícola em ascensão. Esse quadro favorecia a compra da liberdade.
Para conseguir o seu objetivo, o cativo tinha que ser, antes de mais nada, um bom negociador, o que significava um acordo com o seu dono sobre a forma de pagamento. Quem não ganhava a alforria em testamento ou na pia batismal, podia pagá-la parceladamente, num período de quatro a cinco anos, em prestações semestrais, num sistema denominado coartação –nesse tempo, o chamado coartado ficava longe do domínio cotidiano de seu proprietário. Outra forma de ficar livre era pagando à vista. “O dinheiro para saldar o débito era obtido de diversas formas. As mulheres dominavam o pequeno comércio, vendendo, nas ruas, doces, sucos, carnes e outros produtos. Eram muito comuns, nessa época, as ‘negras de tabuleiro’, que, como mostram também gravuras antigas, saíam pelas vilas e arraiais vendendo comidas. A prostituição era outro caminho para alcançar a liberdade”, conta. O artista italiano Carlos Julião (1740-1811) pintou aquarelas retratando a vida dos recém-chegados da África – e chamados de boçais por não saberem falar a língua portuguesa – e dos enriquecidos.
Um dos objetivos do professor é tirar dos escravos e forros o perfil exclusivo de vítimas e dar-lhes a dignidade de quem construiu sua liberdade e ajudou na edificação do país. “No Brasil, o cenário de escravos amarrados ao tronco, sendo chicoteados, é fortemente panfletário, embora o castigo físico tenha existido em toda a colônia. Enquanto os escravos foram efetivamente agentes da história, a historiografia brasileira contemporânea continua repetindo discursos abolicionistas, o que significa exagerar no grau de violência praticado pelos senhores”, diz o professor, convicto da necessidade de maior aprofundamento das pesquisas.
Estudioso de tema tão polêmico há mais de 20 anos e autor de vários livros, o professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Eduardo França Paiva conta que os escravos desenvolveram autonomia e até ajuizaram ações contra os seus proprietários, quando se sentiam lesados. Muitas vezes levaram a melhor no tribunal, ao defender, por exemplo, que já haviam pago todas as parcelas de compra de sua liberdade, algo que o senhor contestava. “O equívoco maior é pensar que os cativos foram vítimas o tempo todo. O 13 de maio de 1888, lembrado amanhã, data em que a Princesa Isabel (1847-1871) assinou a Lei Áurea e extinguiu a escravidão no Brasil, serve para discutir o assunto e corrigir uma série de distorções, muitas delas construídas pelos abolicionistas”, diz o professor, que segue na próxima semana para Sevilha, Espanha, onde fará o segundo pós-doutorado, desta vez sobre as Américas portuguesa e espanhola.
Nas suas pesquisas, o professor Eduardo, que atua nas áreas da história da escravidão e das mestiçagens, vem fazendo descobertas surpreendentes. Uma das mais importantes se refere aos senhores de escravos que, ao contrário do que se aprende na escola e nos livros didáticos, nem sempre eram brancos. Em Minas, do início do século 18 a meados do 19, mais de 30% desses proprietários eram ex-escravos ou descendentes de escravos. Em 1776, conforme as estimativas, havia na capitania de Minas, então a mais rica e populosa da colônia, com um comércio conectado com o mundo e efervescência social e cultural, cerca de 300 mil habitantes, sendo 130 mil forros (ex-escravos), 110 mil escravos e 60 mil brancos.
“Havia em Minas mais ex-escravos do que escravos, a maior parte mulheres”, afirma o professor, explicando que somente a partir da segunda metade do século 19, a escravidão passou a ser condenada. “Até então, era legal e legítima, e os cativos prezavam dois valores fundamentais: queriam ser livres e proprietários de escravos. Os castigos físicos eram comuns nesses tempos de patriarcado, em que os pais batiam muito nos filhos”, diz o autor de vários livros, entre eles Escravidão e universo cultural na colônia, editado pela UFMG, e Escravos e libertos nas Minas Gerais do século 18, da coleção Olhares/UFMG/Annablume.
Fortuna
Entre as personagens mais importantes encontradas nas pesquisas está Bárbara Aleluia –negra filha de africanos, nascida no Brasil –, uma pernambucana que viveu em Sabará. “Ela foi uma das mulheres mais ricas da época, acumulou fortuna com o comércio e outras atividades”, revela. Pinturas ainda desconhecidas da maioria dos brasileiros mostram negras cobertas de joias e usando trajes típicos, a exemplo das mulheres africanas, ou andando pelas ruas com seu séquito. Num livro, Eduardo mostra o retrato de uma baiana, uma negra enriquecida, que posa em estúdio com seus colares de ouro.
Em Minas, com uma sociedade mais urbana, a situação era bem diferente da encontrada ao Norte da América Portuguesa. “Aqui havia muitos senhores de poucos escravos, em média cinco para cada um, bem diferente de Pernambuco e Bahia, com 30 por um. Outro diferencial mineiro é que nem todos os proprietários eram ricos”, diz o professor, explicando que, por volta de 1730, a mineração de ouro já estava em decadência, embora a economia se mantivesse forte e dinâmica, com um comércio influente e produção agrícola em ascensão. Esse quadro favorecia a compra da liberdade.
Para conseguir o seu objetivo, o cativo tinha que ser, antes de mais nada, um bom negociador, o que significava um acordo com o seu dono sobre a forma de pagamento. Quem não ganhava a alforria em testamento ou na pia batismal, podia pagá-la parceladamente, num período de quatro a cinco anos, em prestações semestrais, num sistema denominado coartação –nesse tempo, o chamado coartado ficava longe do domínio cotidiano de seu proprietário. Outra forma de ficar livre era pagando à vista. “O dinheiro para saldar o débito era obtido de diversas formas. As mulheres dominavam o pequeno comércio, vendendo, nas ruas, doces, sucos, carnes e outros produtos. Eram muito comuns, nessa época, as ‘negras de tabuleiro’, que, como mostram também gravuras antigas, saíam pelas vilas e arraiais vendendo comidas. A prostituição era outro caminho para alcançar a liberdade”, conta. O artista italiano Carlos Julião (1740-1811) pintou aquarelas retratando a vida dos recém-chegados da África – e chamados de boçais por não saberem falar a língua portuguesa – e dos enriquecidos.
Um dos objetivos do professor é tirar dos escravos e forros o perfil exclusivo de vítimas e dar-lhes a dignidade de quem construiu sua liberdade e ajudou na edificação do país. “No Brasil, o cenário de escravos amarrados ao tronco, sendo chicoteados, é fortemente panfletário, embora o castigo físico tenha existido em toda a colônia. Enquanto os escravos foram efetivamente agentes da história, a historiografia brasileira contemporânea continua repetindo discursos abolicionistas, o que significa exagerar no grau de violência praticado pelos senhores”, diz o professor, convicto da necessidade de maior aprofundamento das pesquisas.
terça-feira, 1 de maio de 2012
LEITURA É UM HABITO QUE DEVE SER CULTIVADO.
"És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo"
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo"
(Caetano Veloso)
Vivemos em um tempo em que o tempo passa tão rapidamente
que, muitas vezes, nem nos damos conta. E em meio a esta velocidade, muitas de
nossas prentenções acabam a espera de um tempo para se concretizarem. Certamente
não precisaríamos de muito tempo para lembrar de algo que queríamos ter feito e
ainda não tivemos oportunidade de fazê-lo, como ler um bom livro, por exemplo.
Contudo, se paramos e pensamos um pouco, veremos que muito
do nosso tempo "ocioso" passamos em frente a um computador, como
agora, por exemplo. E foi pensando nisto que resolvi compartilhar com vocês um
link de site de leitura, calma, eu sei que a internet está cheia deles, mas
esse traz novidades. O site "leituradiaria.com" além de
disponibilizar a leitura de livros, permite ainda ao leitor escolher quantos
minutos diarios ele quer se dedicar aquela leitura, em quais dias da semana
pretende realizá-la e como se não bastasse, ele envia para seu e-mail a leitura
obedecendo (+/-) o tempo determinado por você e nos dias selecionados
Lembremos que a leitura é um exercício para o cérebro e como
tal é indispensável para a nossa saúde mental. Sendo assim, sugiro que se
comece aos poucos, cinco minutos diários, e vá aumentado gradativamente os
minutos de leitura com o decorrer do tempo. Para tanto copie o endereço do site
e cole em seu navegador e boa leitura.
domingo, 15 de abril de 2012
Google Art Project chega ao Brasil.
|
O "Google Art Project" acaba de chegar ao Brasil. E você
pode se perguntar: e daí? Criado em 2011 para tornar obras de arte de todo o
mundo mais acessível, o Google Art Project é uma espécie de "Street
View" para museus e galerias. São mais de 150 espaços totalmente
digitalizados em 40 países que, no total, somam mais de 30 mil peças de arte
em alta resolução. Uma verdadeira viagem virtual!
Esta semana, o Museu de Arte Moderna de São Paulo e a Pinacoteca do
Estado de São Paulo passaram a fazer parte desse projeto com quase 200 obras
nacionais digitalizadas. O objetivo, além de levar mais cultura para a web, é criar a oportunidade para pessoas do
mundo inteiro conhecerem esses acervos. O "Art Project" é uma nova
forma de interação com a arte e complementa as visitas aos mais renomados
museus mundo afora.
Mais do que as obras em alta resolução, o projeto permite que o
visitante virtual faça um passeio dentro dos museus, sala por sala. Assim, é
possível conhecer exatamente onde cada peça está localizada. Mas, tão bacana
quanto visitar virtualmente essas salas, é saber como essas imagens são
produzidas!
Tudo é feito com este "trolley", um carrinho que possui quinze câmeras de alta definição em
360º, e recria o ambiente usando exatamente a mesma tecnologia do
"Street View". Algumas imagens atingem os 7 bilhões de pixels,
suficiente para aproximar o zoom e ver detalhes até da tela usada pelo
artista. São detalhes que você talvez nem visse, mesmo que estivesse de
frente para o quadro.
Alessandro Germano, gerente de novos negócios do Google, comenta que
"você tem essa impressão quando está navegando na ferramenta e consegue
girar e olhar para cima ou para baixo". Ele explica que, "além
disso, há no carrinho três feixes de laser, um na frente e um de cada
lado". Alessandro explica que eles servem para criar uma noção de
distância até uma parede, obstáculo ou obra. Os lasers também ajudam quem
está "pilotando" o carrinho: "A pessoa consegue navegar sem
precisar se preocupar tanto com o trajeto ou com a ação de olhar para o
trajeto", diz.
Esse mesmo laser serve também para detectar a profundidade de algumas
esculturas e dar ainda mais realismo às imagens captadas. Interessante é que
o "Art Project"não se limita somente a museus e galerias de arte.
Alessandro diz que no próprio MAM, há o exemplo da escultura dos
gêmeos, que fica do lado de fora do museu. Assim como há palácios e até a
Casa Branca, nos EUA, que "não é tecnicamente um museu, mas é uma
galeria de arte", explica: "Temos exemplos mais radicais, como uma
galeria de arte rupestre nas rochas, na África do Sul, que fica totalmente ao
ar livre e que também está no projeto".
No "Art Project", o visitante pode navegar pelas obras
usando o nome do artista, museu, país de origem e até pelo período histórico
da peça. O serviço já está integrado com as redes sociais Google Plus e
também com o Facebook. A ideia é que os usuários criem e compartilhem suas
próprias galerias.
Quer viajar você também e conhecer, além dos museus nacionais, acervos como o MoMa, em Nova York ou o Palácio de Versailles, na França?. Divirta-se!
Obs.: Vale lembrar que aqui no Brasil nós já tínhemos acesso ao passeio virtual a vários museus através do site Era Virtual, cujo o link se encontra em nosso blog desde sua criação.
|
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Digital x impresso
Espalhados pelo chão, empilhados sobre a mesa, em cima das cadeiras, dezenas de livros aguardavam voltar para as estantes, de onde foram retirados por causa de uma pequena obra em casa. Eu acabara de ler no Prosa & Verso uma matéria que me pôs a pensar sobre o futuro deles. Será que teriam utilidade para Alice daqui a uns 15 anos? O debate no suplemento era sobre os efeitos do mundo digital sobre a leitura, a competição entre internet e texto impresso, fazendo lembrar a antiga discussão entre o que Umberto Eco chamou de "apocalípticos e integrados", para definir os que temiam e os que aceitavam a comunicação de massa. No artigo em que procurava desfazer o clima maniqueísta da disputa, Pedro Doria analisava os mais recentes trabalhos que tratam do tema.
O apocalíptico dessa história é Nicholas Carr, autor de "A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros". Recorrendo ao próprio exemplo, ele confessa que antes passava horas mergulhado em extensos trechos de prosa. "Agora, raramente isso acontece. Minha concentração começa a se extraviar depois de uma ou duas páginas." Na mesma linha, outro intelectual dizia que ninguém mais lê "Guerra e paz" por ser "longo demais". A internet teria mudado nosso jeito de ler, passando de linear, sequencial, para uma forma fragmentada, desatenta, interrompida por hiperlinks.
Olhei à minha volta e percebi o quanto havia de volumes "longos demais", que daqui a pouco estariam condenados, segundo essa tendência. Ali estavam "Ulisses", de James Joyce, 888 páginas); "Gênio", de Harold Bloom (828); "Pós-guerra", de Tony Judt (847); "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, 40 edição (668); "Os sete pilares da sabedoria", de T.E. Lawrence (782), entre muitos outros. Será que a humanidade não iria produzir mais uma "Divina Comédia", um "Lusíadas" ou um "D. Quixote"? Será que só haverá lugar para mensagens de 140 toques? Talvez, se estivermos fabricando o que Carr chamou em entrevista a Guilherme Freitas de "leitor distraído, que não lê com profundidade; passa os olhos no texto, lê na diagonal". Decodifica apenas, em vez de "um sofisticado ato de interpretação e imaginação".
A questão, porém, é mais complexa, como se depreende do ensaio do professor João Cezar de Castro Rocha na mesma edição. Ele mostra que o advento da palavra impressa causou impacto parecido no universo da palavra falada e escrita. Décadas depois da invenção dos tipos móveis, o livro foi comparado a uma catedral, com um final que se anunciava infeliz: "O livro destruirá o edifício; a imprensa superará a arquitetura."
Agora, voltou à moda decretar o fim do impresso. Para quem, como eu, acredita na convergência e não no antagonismo entre as tecnologias de comunicação, o consolo é que os que anunciaram a morte da imprensa e do livro morreram antes.
Zuenir Ventura, Jornal O Globo do dia 22/04/2012
O apocalíptico dessa história é Nicholas Carr, autor de "A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros". Recorrendo ao próprio exemplo, ele confessa que antes passava horas mergulhado em extensos trechos de prosa. "Agora, raramente isso acontece. Minha concentração começa a se extraviar depois de uma ou duas páginas." Na mesma linha, outro intelectual dizia que ninguém mais lê "Guerra e paz" por ser "longo demais". A internet teria mudado nosso jeito de ler, passando de linear, sequencial, para uma forma fragmentada, desatenta, interrompida por hiperlinks.
Olhei à minha volta e percebi o quanto havia de volumes "longos demais", que daqui a pouco estariam condenados, segundo essa tendência. Ali estavam "Ulisses", de James Joyce, 888 páginas); "Gênio", de Harold Bloom (828); "Pós-guerra", de Tony Judt (847); "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, 40 edição (668); "Os sete pilares da sabedoria", de T.E. Lawrence (782), entre muitos outros. Será que a humanidade não iria produzir mais uma "Divina Comédia", um "Lusíadas" ou um "D. Quixote"? Será que só haverá lugar para mensagens de 140 toques? Talvez, se estivermos fabricando o que Carr chamou em entrevista a Guilherme Freitas de "leitor distraído, que não lê com profundidade; passa os olhos no texto, lê na diagonal". Decodifica apenas, em vez de "um sofisticado ato de interpretação e imaginação".
A questão, porém, é mais complexa, como se depreende do ensaio do professor João Cezar de Castro Rocha na mesma edição. Ele mostra que o advento da palavra impressa causou impacto parecido no universo da palavra falada e escrita. Décadas depois da invenção dos tipos móveis, o livro foi comparado a uma catedral, com um final que se anunciava infeliz: "O livro destruirá o edifício; a imprensa superará a arquitetura."
Agora, voltou à moda decretar o fim do impresso. Para quem, como eu, acredita na convergência e não no antagonismo entre as tecnologias de comunicação, o consolo é que os que anunciaram a morte da imprensa e do livro morreram antes.
Zuenir Ventura, Jornal O Globo do dia 22/04/2012
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